28 Fevereiro 2009

As crianças na primeira escola: sujeitas ao trabalho ou trabalho de sujeitos?

(texto produzido para o XVII colóquio da AFIRSE - FPCE, Lisboa 12, 13, 14 de Fevereiro)

A análise de relatos de jovens, que foram alunos do 1º ano de escolaridade no período compreendido entre 1989 e 1992, evidencia uma primeira escola feita de rotinas e normas, na qual as crianças são objectos de formatação. Na sua escrita, estes jovens mostram uma iniciação ritualizada, exterior ao aluno. Os alunos-objectos são catalogados em listas e pautas, em função da resposta às exigências de quem os instrui. São descritas actividades estereotipadas, sem relação com o mundo fora da escola, de realização obrigatória para se manter na corrida faseada, própria da instrução escolar portuguesa referida.

Os depoimentos contrastam com a descrição de práticas baseadas na participação activa das crianças, envolvidas em projectos de intervenção na escola, a volta da escola e no mundo. Aqui a primeira escola assume-se como espaço cultural intermédia para crianças e adulto, prendidos por uma dinâmica do desejo que imprime um sentido a sua acção. Apresenta-se nestes casos um trabalho guiado pelos intervenientes que criam, controlam e adaptam as suas próprias rotinas e os seus próprios códigos de conduta. Mostra-se processos de trabalho de crianças-sujeitos, exigentes consigo mesmo pela vontade de ser co-autor de produtos autênticos.

Quando comparados com estes dois aspectos da realidade escolar, os discursos produzidos por fazedores de opinião, mais do que reflectir esta realidade, parecem basear-se numa fantasia de escola, que os seus autores pressupõem existir mas que nunca saiu do papel. São discursos armadilhados pelo senso comum reforçado com situações residuais, empoladas por uma certa comunicação social.

Ficam por fazer algumas perguntas incómodas acerca do condicionamento do trabalho dos alunos pela formação inicial de professores e pela liberdade da escolha metodológica na escola pública.


Texto completo em pdf.

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