03 Abril 2009

Punir les Pauvres

É o título de um livro muito interessante de Loïc Wacquant. Foca a forma como o mundo globalizado do poder determina que a condição de pobre é resultado de má escolhas do próprio.

Lembrei-me da leitura deste livro porque, desde algum tempo, e quase diariamente, recebo, na minha caixa de correio electrónico, um reencaminhamento de um abaixo-assinado que circula na rede electrónica e que solicita, ao poder, medidas para responsabilizar encarregados de educação de crianças que abandonam a escola ou que têm maus resultados.

A escola, saudosa do longo verão de cultura liberal (Georges Steiner), em que se trabalhava com públicos seleccionados, nunca se adaptou bem ao alargamento do ensino para todos, como falhou por completo na aposta (irrealista?) para contribuir na formação humanista que permite a cidadania activa (Pierre-André Taguieff).
A escola pública tornou-se a moderna escola dos pobres; parece continuar as propostas de Démia e La Salle que têm como objectivo a integração cívica de crianças, filhos de quem não tem poder. Procura, como então, manter e defender uma organização social estratificada.

E, nesta escola pública, há quem inventa uma alternativa à proposta da escola do tempo de La Salle.
Na altura, os pais das crianças pobres recebiam um abono desde que provavam que aprendiam bem o que as crianças aprendiam na escola. Na prática tinham que recitar as lições que as crianças levavam para casa e eram premiados para o facto. Agora há quem, estando na escola, pede que seja regulamentado a responsabilização dos pais pelo comportamento dos seus filhos e das suas filhas em relação a escola. Estranhei.

Estranhei, porque tenho o privilégio de acompanhar, em escolas públicas em zonas definidas (por quem?) como difíceis, largas dezenas de professores e professoras (titulares de turma e de actividades de enriquecimento curricular). Reinterpretaram o currículo nacional e investiram metodologicamente e pedagogicamente: promoveram, entre as crianças seus alunos, o desenvolvimento de trabalho em projecto; introduziram instrumentos de regulação do espaço e do tempo, permitindo uma gestão partilhada da turma e uma maior autonomia por parte das crianças para seguir o seu próprio processo de aprendizagem. Procuram formas para dar a palavra a quem, por norma, na escola, não a tem, em assembleias ou conselhos para a gestão interna, em jornais ou blogues, para comunicar com o mundo e apresentar os seus projectos.
Há quem abriu as portas aos pais, para que participem em actividades na sala de aula, durante ou depois do tempo lectivo: ouvindo e vendo os projectos feitos pelas crianças, tornando-se fontes de informação e colaboradores para outros projectos e trabalhos.

Não tudo está a funcionar como sonharam ou desejaram. Mas analisa-se, adapta-se, melhora-se. Não foi preciso nenhum abaixo-assinado, recorrendo ao poder, para chamar à aprendizagem as crianças e para interessar cada vez mais os adultos pelas realizações colectivas dos seus filhos e das suas filhas.
Procurou-se e procura-se (re)encontrar o desejo para aprender, através de projectos de trabalho. Apresentam produtos autênticos, fruto do questionamento e da obra colectiva em que participam crianças, pais, mães, professores e professoras.
Entre profissionais discutem, investem e começam a escrever. Relatam, entre profissionais, o que fizeram e abriram-me as portas. Experimentam, todos os dias o difícil equilíbrio resultante do paradoxo que o Philippe Meirieu define, quando fala do princípio da educabilidade.

Participar na criação de condições para uma relação com o saber que permite cidadania activa?
Recorrer ao apoio do poder para incluir no padrão quem perturba por não o ser?
Ou punir os pobres?

1 comentários:

Ana disse...

Não quero nem acredito que a escola pública, seja a escola dos pobres.
Acredito que a escola pública é sim a escola daqueles que ou não têm escolhas ou ainda daqueles que acreditam na escola para Todos.

Defendo uma escola aberta à comunidade. Melhor defendo uma escola que seja parte do tecido comunitário. Defendo uma escola em que haja regras de funcionamento claras para todos, construidas por todos e que consequentemente haja consequências e prémios para aqueles que escolhem cumpri-las ou não!

Simplificar a questão, pondo a questão entre os ricos e pobres. Ou entre aqueles que punem e os que sofrem punições não é justo para aqueles que não se consideream nem ricos nem pobres mas sim Pessoas.