26 Setembro 2009
Um aspecto privado do ensino público
Leio que há autarquias que optam por comprar e distribuir manuais em vez de gerir a distribuição dos abonos para a compra de material escolar.
Não vejo manuais realmente reutilizáveis, isto é, antologias e compêndios.
Não vejo bibliotecas escolares que gerem antologias, compêndios e livros de estudo, emprestando-os, eventualmente contra uma caução, e recolhendo-os, entre os alunos, quando é justificada a sua posse diária.
Lembro-me, como aluno da escola básica e secundária, nunca ter "possuído" um único manual. Recebia os meus livros escolares no início do ano escolar, e entregava-os no fim do mesmo ano escolar. Os meus pais pagaram uma caução quando entrei no 7º ano, que lhes foi devolvida, quando saí do 12º ano. Não me lembro se, no meu caso, lhes foi abatido uma parte, por danos provocados aos livros de que usufrui, mas tenho a vaga lembrança que sempr fui bastante cuidadoso com o que me foi dado de empréstimo.
A vida estimada de cada livro era de 6 anos. A escola, com verbas do Estado e com receitas próprias, em grande parte provenientes de quotizações simbólicas de ex-alunos, tratava e continua a tratar da aquisição de novos livros, em função dos programas e do projecto curricular da escola. A minha quotização anual para o fundo de livros da minha ex-escola secundária é actualmente de 10 euros anuais.
Enquanto se continua a promover a compra organizada, compulsiva e anual de toneladas de cadernos de exercícios, em todas as tonalidades de subtileza, e erradamente intitulados de livros escolares, é difícil não pensar que a "privatização" da escola pública passa pelas editoras de objectos intitulados de manuais escolares.
Além de mais barato, para pais, mães e erário público, a posse colectiva destes bens tem ainda a vantagem de ser mais ecológico.
17 Setembro 2009
"Leren is geen dwangarbeid" is uit!
Boekhandel New Corman,
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tel. 059 70 27 24
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Boekhandel Walry
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Meer over het boek
08 Setembro 2009
Testemunho de trabalho feito
Vale a pena espreitar!
26 Junho 2009
A força da imagem
Este ano tive o privilégio de trabalhar com vários grupos de professores e professoras, em contextos diferentes, todos unidos em torno de uma preocupação: melhorar o trabalho pedagógico para ajudar as crianças nas suas aprendizagem, para melhor promover o seu sucesso escolar e social.
Num grupo de formação de professores de 1º ciclo, e depois de um período de discussão acerca do “cenário pedagógica”, ilustrado com fotografias de ex-turmas de um dos formadores, foi possível, pouco a pouco, introduzir espaços específicos, áreas de trabalho ou de organização de recursos, ancorados na prática de cada um dos formandos e logo interpretado de maneira diferente por cada um dos formandos.
A força do número fez com que, três semanas depois do arranque do ano lectivo, aparecessem as primeiras fotografias das turmas apoiadas. A insistência, nas reuniões quinzenais, de debater o trabalho em curso e o registo fotográfico das várias turmas, ajudou cada um dos particpantes na sua reflexão sobre como adaptar e adaptar-se e abriu as portas aos formadores, para participarem, em contexto, nos momentos de trabalho autónomo ou trabalho de projecto.
A consequente utilização de imagens, mesmo entre professores do mesmo agrupamento, revelou-se muito importante: para muitos foi um primeiro contacto com o local de trabalho de outros colegas e com outras crianças. Habituados a encontrarem-se nas reuniões formais do agrupamento, pouca discussão existia em torno de situações de trabalho concretos, na sala de aula. De facto, mesmo quando um grupo de professores de 1º ciclo se reúne para discutir assuntos pedagógicos, cada um refere-se à sua turma, desconhecida de cada um dos outros participantes. Faz parte da especificidade do trabalho no 1º ciclo. Se nenhum estudo nega a imensa vantagem que a monodocência tem para a promoção de um currículo transversal e integrado, não deixa de ser verdade que não é possível discutir estratégias pedagógicas para uma turma da mesma forma como um conselho de turma do ensino pós-primário o faz. Fotografias e curtos momentos filmados de situações de trabalho têm-se mostrado extremamente eficazes.
Tendo a experiência num agrupamento, foi nossa intenção levar esta mesma prática para a oficina de formação de outro agrupamento inserido num contexto semelhante. Mas, enquanto no primeiro agrupamento, com muitas turmas, rapidamente apareceu material recolhido no próprio agrupamento, isto não foi o caso no segundo, muito mais pequeno. Por isso recorreu-se e voltou-se a recorrer às imagens de uma das ex-turmas de um dos formadores. Estas imagens provocaram alguma discussão, animaram muitas sessões acerca da organização do trabalho e levaram vários formandos a trazerem produtos autênticos, feitos pelos alunos, na sequência de trabalho de projecto. Porém, tardava o convite para participar na sala. Entretanto, a plataforma Moodle tornou virtualmente conhecidos os professores de agrupamentos distintos e distantes em torno da mesma oficina. Os materiais trocados são reconhecíveis: propostas de plano individual de trabalho, propostas de organização do espaço e do tempo, discussões acerca da negociação do trabalho, acerca do trabalho em projecto. Pedimos num agrupamento se podíamos mostrar no outro algumas imagens do seu tempo de trabalho autónomo. E numa nova discussão acerca do trabalho individual e do trabalho a pares, ilustrou-se com imagens do agrupamento distante, um argumento verbal. A pergunta que seguiu foi imediata: “Isto são imagens de lá?” (subentendido, não são da turma de um dos formadores?).
Perante a confirmação, a resposta foi, inesperadamente, a desde há muito esperada: “Mas isto é parecido com o que nós também já fazemos. Querem visitar a nossa sala?”
Na promoção de uma pedagogia de trabalho, de rigor e de envolvimento das crianças, para que sua a relação com o saber ganhe sentido e facilite as aprendizgens, as imagens têm-se revelado poderosos aliados. De várias maneiras....
30 Maio 2009
Aferir em laboratório esterilizado
Levantam-se vozes contra uma pedagogia centrada sobre as aprendizagens das crianças.
Levantam-se vozes contra a monodocência.
Dificulta-se a utilização diversificada de meios, canalizando o dinheiro disponível para manuais únicos na turma.
Em vez de optar pelo equipamento de bibliotecas de salas e escolas, encomenda-se um sem-número dos mesmos livros infantis, continuando a lógica concentracionária em que na fantasia dos gestores uma turma equivale um aluno.
As salas são locais despidas de sentido para as crianças, muitas vezes em grande contraste com os espaços do pré-escolar.
No dia a dia, procurando dar resposta às inquietações das crianças, há professores que transformam o local de trabalho num espaço-tempo que permite às crianças estabelecerem rotinas que lhes facilitam o trabalho transversal e autónomo inscrito no programa. A organização, na qual, nalguns casos, as próprias crianças são levadas a sério e envolvidas nas tarefas de gestão da agenda, da construção de regras e rotinas, de avaliação do avanço perante o currículo e as encomendas do programa, é sustentada pela informação disponibilizada nas paredes da sala, criteriosamente divididas, quando o mesmo espaço serve duas turmas.
As fotografias ilustram este trabalho, como o fazem as páginas e os “jornais virtuais” com as ligações a partir deste mesmo weblog.
A semana passada chegaram-me algumas cartas de crianças de 2º ano de escolaridade que tiveram que emprestar o seu espaço de trabalho a um grupo de 4º ano, por causa das provas de aferição. Repetem muitas vezes a mesma coisa, pelo que retomo aqui alguns fragmentos:
Segunda-feira dia 28 de Maio de 2009 houve provas de aferição e tiraram tudo, porque desarrumaram a nosso sala.
A nossa sala tinha papéis na parede, por exemplo as regras, as nossas coisas que aprendemos e muitas coisas mais. Num dia houve um teste e tiraram todos esses papéis. Então muitas pessoas disseram que a nossa sala ficou mais ou menos fria. Quando disseram isso, nós ficámos muito tristes mas também concordámos.
Antes a minha sala era muito bonita, tinha as regras, os cartazes. Um dia, chegámos e a sala estava sem nada. Só ficou o bostick. Nós ficámos tristes. Agora temos de fazer tudo de novo! Tudo por causa de uma prova de aferição. Isto foi injusto porque (agora) a nossa sala está feia.
O que se passou? Para não “viciar” as tais provas, existem indicações para que, nas salas onde as crianças (de 4º ano) as realizam, sejam tiradas ou tapadas informações que interferem: tabuadas, tabelas de computação, apoios para a ortografia ou para a gramática, etc.
Na escola básica as aferições são testes sem consulta? Prática estranha de aferição de competências, limitadas às que apelam a memória, mas não é isto que aqui quero questionar.
O que me pergunto, é porque é que esta indicação para ocultar a informação, criando assim uma ilusão de igualdade de circunstâncias para cada criança em prova, seja interpretada, em tantas escolas, como uma acção “Neoblanc na escola”. Porquê originar um vendaval que varre papeis, desenhos, pinturas, mapas de presença, de distribuição do leite, de tarefas e responsabilidade afixadas na parede, identificações de espaços de trabalho, fazendo de conta que assim se transforma a sala de prova num gabinete digno de estudo laboratorial?
Há ainda muitos adultos que gostam de brincar a escolinha, com rituais austeros, confundindo avaliação com classificação, incluíndo quadro de mérito e imitações académicas no fim.
Que mal é que as crianças fizeram aos adultos? E à escola?
15 Abril 2009
"Vale mais acender uma vela...
O livro retrata um século de cooperativismo português abarcando todo o período de opressão do Estado Novo.
Vale mais ler o livro do que dizer que ouviu falar dele.
Een heel interessant boek voor wie meer wil weten over wat het fascisme in Portugal betekend heeft en op welke manier de cooperatieve beweging ondergronds en bovengronds werkte. Een getuigenis in de eerste persoon, aangevuld met een diepgaande consultatie van documenten.
Je moet wel portugees kunnen lezen. Maneiras Cooperativas de Pensar e Agir. José Hipólito Santos. Ed. Univ. Lusófonas.
03 Abril 2009
Punir les Pauvres
Lembrei-me da leitura deste livro porque, desde algum tempo, e quase diariamente, recebo, na minha caixa de correio electrónico, um reencaminhamento de um abaixo-assinado que circula na rede electrónica e que solicita, ao poder, medidas para responsabilizar encarregados de educação de crianças que abandonam a escola ou que têm maus resultados.
A escola, saudosa do longo verão de cultura liberal (Georges Steiner), em que se trabalhava com públicos seleccionados, nunca se adaptou bem ao alargamento do ensino para todos, como falhou por completo na aposta (irrealista?) para contribuir na formação humanista que permite a cidadania activa (Pierre-André Taguieff).
A escola pública tornou-se a moderna escola dos pobres; parece continuar as propostas de Démia e La Salle que têm como objectivo a integração cívica de crianças, filhos de quem não tem poder. Procura, como então, manter e defender uma organização social estratificada.
E, nesta escola pública, há quem inventa uma alternativa à proposta da escola do tempo de La Salle.
Na altura, os pais das crianças pobres recebiam um abono desde que provavam que aprendiam bem o que as crianças aprendiam na escola. Na prática tinham que recitar as lições que as crianças levavam para casa e eram premiados para o facto. Agora há quem, estando na escola, pede que seja regulamentado a responsabilização dos pais pelo comportamento dos seus filhos e das suas filhas em relação a escola. Estranhei.
Estranhei, porque tenho o privilégio de acompanhar, em escolas públicas em zonas definidas (por quem?) como difíceis, largas dezenas de professores e professoras (titulares de turma e de actividades de enriquecimento curricular). Reinterpretaram o currículo nacional e investiram metodologicamente e pedagogicamente: promoveram, entre as crianças seus alunos, o desenvolvimento de trabalho em projecto; introduziram instrumentos de regulação do espaço e do tempo, permitindo uma gestão partilhada da turma e uma maior autonomia por parte das crianças para seguir o seu próprio processo de aprendizagem. Procuram formas para dar a palavra a quem, por norma, na escola, não a tem, em assembleias ou conselhos para a gestão interna, em jornais ou blogues, para comunicar com o mundo e apresentar os seus projectos.
Há quem abriu as portas aos pais, para que participem em actividades na sala de aula, durante ou depois do tempo lectivo: ouvindo e vendo os projectos feitos pelas crianças, tornando-se fontes de informação e colaboradores para outros projectos e trabalhos.
Não tudo está a funcionar como sonharam ou desejaram. Mas analisa-se, adapta-se, melhora-se. Não foi preciso nenhum abaixo-assinado, recorrendo ao poder, para chamar à aprendizagem as crianças e para interessar cada vez mais os adultos pelas realizações colectivas dos seus filhos e das suas filhas.
Procurou-se e procura-se (re)encontrar o desejo para aprender, através de projectos de trabalho. Apresentam produtos autênticos, fruto do questionamento e da obra colectiva em que participam crianças, pais, mães, professores e professoras.
Entre profissionais discutem, investem e começam a escrever. Relatam, entre profissionais, o que fizeram e abriram-me as portas. Experimentam, todos os dias o difícil equilíbrio resultante do paradoxo que o Philippe Meirieu define, quando fala do princípio da educabilidade.
Participar na criação de condições para uma relação com o saber que permite cidadania activa?
Recorrer ao apoio do poder para incluir no padrão quem perturba por não o ser?
Ou punir os pobres?
